Fósforos

Fósforos.

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O Bloco.

O feriado de carnaval passou, e, eu que achei que ia acontecer algo diferente e fui surpreendida. Aconteceu! Nunca gostei de sair por aí pulando carnaval e nem entendo o porquê nessa época somos felizes no meio de aglomerações. Na realidade, não somos felizes. Melhor, não sou. Detesto aglomerações! Tem sempre algum engraçadinho que quer se aproveitar para fazer aquilo que não poderia (não deveria) e colocar a culpa na multidão. Por isso sempre prefiro viajar para um lugar frio. Esse ano foi diferente, optei por não viajar e ficar em casa, coisa rara para quem trabalha, estuda e tem vida social, mas fui presa ao meu lar, algo me dizia para não sair. Moro sozinha em um pequeno apartamento no centro da cidade. Não é lá muito confortável, já que o sol bate bem de frente a minha janela e deixa tudo muito quente, mas a vizinhança e a localização compensam. Aliás, meus vizinhos são um tanto excêntricos: Seu Manuel, um velho meio surdo, que vive a gritar toda vez que vê no jornal das nove, que os velhos tempos eram melhores e que a terceira guerra mundial está por vir, assim como o fim do mundo e seu próprio fim. Vive sozinho em seu apartamento e não aceita que lhe tirem a razão. Eva, uma mãe solteira e seu filho Charlie, adolescente rebelde e problemático que deu agora por vender as coisas de casa para saciar seu vício. Um casal, novos no prédio, vizinhos de parede e que não sei o nome ainda, já que ele só a chama de vadia; a recíproca, por assim dizer, é verdadeira, pois ela só o chama de safado durante suas constantes brigas. E Dona Lúcia, a antiga síndica do prédio, uma velhinha que sempre me chama para tomar um chá nos finais das tarde de domingo, falar sobre seus amores do passado, além de dar conselhos amorosos e falar principalmente de seu Neto. De acordo com ela, o rapaz é incrível, culto, polido, um verdadeiro cavalheiro. Contava toda vez que lembrava o fato de que o guri havia atravessado, certa vez, doze cegos na rua, com toda a paciência do mundo. Duvido – a velha não bate tão bem da cabeça, de certo – mesmo assim, eu ainda ouvia e opinava durante o discurso de Dona Lúcia. Ela dizia que eu era uma menina muito linda e inteligente, pois adorava me perguntar de livros que eu havia lido. Na verdade, eu sempre li pouco. Procurava pegar resumos de livros e depois reconta-los para a idosa. Ela nunca lera, até porque, era analfabeta, segundo a própria. Mas foi naquele feriado que Dona Lucia me fez uma proposta. Pediu que passasse o domingo com ela, para que eu pudesse conhecer o tal neto. Disse que ele passaria na casa dela para buscar uma blusa que havia deixado para ser costurada, antes de ir pular carnaval, então teríamos tempo para falar sobre romances e tomar chá. Passamos horas no domingo de carnaval tomando o tal chá e conversando. No entanto o Neto não chegava. Pensei por um instante que talvez fosse imaginação, caduquice da velha. Fiquei o dia inteiro e a tarde toda na casa da mulher e nada até que por fim o Seu Manuel bateu na porta afoito: – Lúcia do céu! O seu neto tá caído no chão do prédio! Dona Lúcia deu um salto, e eu automaticamente fiz o mesmo, corri com ela escada a baixo e quando chegamos ao hall do prédio encontramos lá, o tão falado neto, caído ao chão, imóvel, e completamente lindo. Apaixonei-me! Eu sou daquelas, que nunca teve um grande amor. Na verdade, todos os relacionamentos que tive foram apenas sexo, alguns nem chegaram a isso de tão rápidos, e mais nada; nunca senti falta de nenhum deles, e nem vontade de passar horas e horas com uma pessoa, sempre achei que essa coisa de coração bater forte por alguém era coisa de quem não conseguia se amar, portanto meu coração nunca bateu forte por nenhum homem. Alguns amigos chegavam a dizer que tudo era culpa das malditas decepções amorosas, porém no meu caso, sempre tive amor próprio demais para deixar que outro tivesse mais prazer do que eu em algum relacionamento, então acabava causando as decepções amorosas. Talvez fosse coisa da minha mãe que dizia sempre que “em primeiro lugar é você, em segundo também e em terceiro idem”. Mas naquele momento, enquanto o bloco carnavalesco passava tocando bem alto para aquela gente toda, no instante em que vi aquele homem, estendido no chão, tremi e senti como se minhas pernas estivessem bambas e meu coração fosse parar naquele instante. Dona Lúcia acudia o neto e me gritava perguntando o que fazia eu parada, como se fosse uma estatua. Comecei a me mexer e tentar acordar o rapaz. Esse cheirava a cachaça pura, devia ter bebido antes de ir pular carnaval. Aos poucos ele foi abrindo os olhos e falando tudo embaralhado. Concordamos leva-lo para meu apartamento que era mais perto. Corri e fiz um café bem forte, enquanto Dona Lúcia colocava o menino para tomar um banho, no entanto, de tão bêbado foi necessário que chamassem Charlie, o filho da vizinha, que passava por ali naquele instante, meio entorpecido, com os olhos vermelhos, para ajudar a segurá-lo em pé dentro do box. Charlie ficou falando para o bêbado que se tivesse usado outra coisa, não teria ficado ruim assim, aliás, ficou tempo o suficiente para roubar um anel dourado que eu havia esquecido em cima da cômoda do meu quarto. Após meia hora de banho e café forte, o rapaz foi deitado em minha cama, para descansar um pouco. Tentação! Fui pra sala e sentei-me ao lado de Dona Lúcia que naquele momento fechava os olhos de cansaço. – Pode ir pra casa Dona Lúcia. Assim que seu neto acordar chamarei a senhora. – Vou sim minha filha, – disse já se levantando – vou me deitar um pouco e tomar os remédios da pressão. Qualquer coisa me avise – e assim saiu. O bloco de carnaval continuava animado e já passava da meia-noite da segunda-feira de carnaval. Eu resolvi deitar no sofá da sala, pois o menino não acordava de jeito nenhum. Até andei dando umas espiadinhas pela fresta do quarto, mas ele estava lá, desfalecido. Acontece que o barulho que vinha das marchinhas de carnaval não me deixava dormir, então resolvi tomar um banho. Senti então algo me pegando forte pela cintura, quase como se fosse me arrebatar e vi o neto de Dona Lúcia, completamente encantado. Pulamos o beijo, não havia o que se beijar àquela altura; os dois nus dentro do chuveiro fazendo sexo descaradamente. Eu gemia alto de prazer. O bloco na rua tocava alto, mas não escutávamos nada, apenas um ao outro ofegante. Nem mesmo conseguíamos ouvir o senhor Manuel martelando minha porta e praguejando aos berros, na realidade ouvíamos o praguejar, mas não nos importávamos, na realidade fazíamos para incomodá-lo mesmo. No fim, terminamos com um beijo, aquele que fora ignorado no início. Acordei sozinha em minha cama no dia seguinte. Ainda estava nua. Procurei pela casa toda onde estava o menino, até que fui à casa de Dona Lúcia. Lá estava ele sentado, telefonando para algum amigo, combinando a última saída de carnaval. Eu calmamente sentei ao lado e dei um beijo na testa do guri, que por sua vez devolveu-me um sorriso sem graça. Fui até a cozinha, onde estava Dona Lucia, que perguntou: – Então, meu neto vai sair já já, não querer ir com ele? – Não Dona Lúcia. Ficarei em casa mesmo. Afinal, é melhor esperar o carnaval chegar a janela e devagarinho entrar em minha alma.

Por Katchadouriam e Hugo

Do verbo devorar.

Eva terminou com o namorado. O ex-senhor perfeição havia corrido atrás de uma rapariga qualquer na rua. Eu assistia da porta feliz da vida, porque agora eu poderia tentar algo com ela, que até então só sabia que eu existia, porque toda vez me via observando a rua na hora em que ela passava e me dizia um “oi” seguido de um sorriso. Já parou algumas vezes para dizer que ia à casa do safado, além de enumerar algumas qualidades dele. Besteira! Agora que ela terminou, veio desesperada na porta a desabafar o quão vadio o rapaz foi. Abracei-a umas sei lá quantas vezes seguidas e a fiz beber não sei quantos goles de água com açúcar, e inventei uma frase de impacto para ela ver o quão esperto eu sou.

– Não acredite em contos de fadas, porque as fadas nem sempre contam a verdade. Já ouviu falar de chapeuzinho vermelho? Pois bem, a história não era tão linda quanto você já ouviu! O lobo acabou por devorar a pobre menina. Na realidade, acho que tu namoraste o lobo. Vejo bem em você a chapeuzinho sofrendo depois do abuso que sofreu. Venha cá, mais um abraço e mais um copo de água para você melhorar esse rosto inchado.

Ela riu-se, a meia boca mandou que parasse de lhe dizer bobagens. Calei-me! Mandou-me também parar de lhe dar água, falou que era uma bebida sem graça e sem gosto, que não levava nem a desespero e nem a conforto, e o açúcar, só a fazia lembrar mais do vadio e que na verdade queria mesmo era um copo de conhaque. Eu não tinha conhaque! Ofereci um vinho velho, do natal passado, que não abri, pois não tinha companhia para compartilhá-lo. Ela riu-se novamente dizendo que vinho era a bebida dos abandonados, e que quem sabe uma garrafa inteira não resolveria o caso dela. Peguei duas taças, e coloquei um pouco de vinho, mas ela já começara a beber direto do gargalo. Não aguentou! Mal tinha dado dois goles e a pobre moça pôs a garrafa ao lado. Nada disse, apenas olhava para seu próprio corpo, suas roupas com um ar de desagrado.

Começou a falar tão rápido que tive que pedir para que repetisse pelo menos umas 3 vezes. Talvez fosse o vinho já fazendo um efeito. Ou talvez fosse ela ali, sentada no meu sofá, bebendo minha garrafa e falando comigo… provavelmente eram as pernas dela, na verdade. Quando conseguia desviar daquele par de pernas, conseguia entender o que ela dizia. Sentia nojo de si, disse que estava imunda, suja, e se sentia sem valor algum. Dizia que ainda sentia o cheiro do suor do desgraçado na ultima noite que passaram juntos, que sentia como se suas mãos ainda estivessem tocando seu corpo. Mãos, as mesmas mãos que já havia tocado o corpo de tantas outras.

Estremeceu-se! Disse que precisava de um banho, que precisava tirar aquele cheiro e aquele gosto que ainda permaneciam nela, um gosto e o cheiro de um safado. Pediu-me uma toalha e logo lhe entreguei uma que nunca tinha usado, era reservada apenas para visitas, mas como nunca as tinha recebido, estava lá, em uma gaveta guardada.

Entrou em meu quarto e da sala pude ouvir o som da água enchendo a banheira e o cheiro de rosas que provinha dos aromatizantes. Sentei-me no sofá e esperei desejoso de ter coragem o bastante de entrar naquele banheiro, tirá-la da banheira completamente nua e beijar-lhe a boca.

Naquele momento, parecia que estava sendo inebriado cada vez mais pelo cheiro de rosas que saia do meu quarto e num certo momento senti como se o cheiro estivesse as minhas costas. Aquele cheiro incitava-me a levantar, mas recusei-me e permaneci ali sentado.

E então, sem ao menos esperar, senti como se pingos de água molhassem o meu ombro e um pequeno toque delicado. Virei-me de súbito e lá estava ela, completamente nua, molhada, e com aquele cheiro inebriador de rosas que me enfeitiçava. Com as faces coradas, as mãos postas ao vento e os olhos bem fixos aos meus começou a falar, ao que demorei alguns minutos parar entender:

– Nem toda água, perfume, faz com que o cheiro dele que sinto impregnado em mim saia. Ainda me sinto suja. Pior, ainda me sinto dele! Necessito ser de outro, necessito do cheiro de outro homem em mim, necessito das mãos de outro homem a me tocar, necessito…

E me beijou, caindo diretamente por cima de mim no sofá. Um beijo daqueles, no meu sofá. Foi ali mesmo que Eva me devorou depois que arrancou minhas roupas. Sim, ela me comeu. Mordiscou, arranhou e comeu. Devorou, eu já disse antes. Suas pernas de abrigo me serviram, seu calor aconchegante me atraiu, até que me prendeu dentro dela e passou a me devorar. Eu gostava e até oferecia bons nacos de carne para que ela comesse, até que, no fim, quando não havia mais nada para banquetear, resolvi oferecer minha alma para seus lábios. O prazer e o gozo vieram. Fui devorado.

No dia seguinte não vi Eva. Vi água por todo canto da casa, bagunça, meu sofá vazio. Mas aquela mulher cheia de volúpia e desejo não. Nem deu tempo de pegar o telefone para convidá-la mais vezes. Resolvi então esperar que ela passasse em frente minha casa, como sempre fez. Por meses isso não aconteceu. Todos os dias saia no muro e ficava a observar, esperando; até que consegui descobrir, graças ao senhor da padaria, que ela havia voltado para o lobo. Vadio! Vadia! Voltei acabado e sem o pão. Carecia de afeto. Queria água. Comprei então uma garrafa do conhaque mais barato que encontrei e com algumas goladas consegui entender o que ocorreu. Fui devorado.

Por Kakee Katchadouriam e Vitor Hugo